Arquitecto pedante das casas abandonadas,
Maestro decadente das orquestras destroçadas,
escritor bêbedo de poemas deslavados,
Maestro decadente das orquestras destroçadas,
escritor bêbedo de poemas deslavados,
Foi trovador, triste, só,
bordador dos retalhos que lhe deram,
Da sua história pouco se sabe,
bordador dos retalhos que lhe deram,
Da sua história pouco se sabe,
Apenas que um dia não veio.
“O papá?” perguntava a criança, pouco consciente de que a realidade é um cão atiçado.
“O papá” respondia a mãe, de olhos cansados, mas sempre bailantes. “o papá é aquela cadeira vazia. São as tuas noites inconsoláveis. As tuas e as minhas. São os dias que ficas sozinha em casa. São os passeios que não tens, porque eu tenho que trabalhar.”
“O papá” respondia a mãe, de olhos cansados, mas sempre bailantes. “o papá é aquela cadeira vazia. São as tuas noites inconsoláveis. As tuas e as minhas. São os dias que ficas sozinha em casa. São os passeios que não tens, porque eu tenho que trabalhar.”
Um dia tinham-lhe dito que ia ser feliz. Que ia casar, ter filhos, ter uma família perfeita. Sonhara, mas quando acordou percebeu que sonhos eram apenas sonhos.
A realidade era um copo partido, já sem hipótese de estar meio cheio ou vazio.
Queria tanto ver o mundo. Queria tê-lo visto, queria partir: mas achava que aquela criança merecia pelo menos um pouco mais do que tinha tido.
E por isso não o ia ver. Ia perdê-lo, deixá-lo passar, ali nas quatro paredes do bairro, da sua cidade.
E a sua cidade não era má. Não havia crime, havia coisas boas. Pessoas francas, pessoas boas, pessoas bonitas, comida boa, vistas lindas de morrer; e depois havia aquela espécie.
A realidade é uma parede mestra rebentada a martelo.
Aquela espécie é um tom de desdém para referir as pessoas que pouco ou nada conhecem de respeito. Pessoas que partem, que rebentam, que atiçam e se atiçam. Não há nada de romântico em ficar na berma da estrada a chorar. Mas isso acontece mais amiúde do que as famílias felizes. E, no entanto, sabia que a maior parte das pessoas não se impedia de sonhar. Estava velha, sentia-se velha. Sentia-se mais do que aquilo que estava, na verdade. Queria ser aconchegada, soluçar, soluçar noites e dias inteiros até que aquela dor se desvanecesse de vez. Anos a alimentá-la, ainda que sem querer, só podia dar nisso.
A sua mãe tinha-se sacrificado para que também ela tivesse uma vida feliz. Visse mundo, visse coisas que nunca tinha visto.
Mas a realidade é um furo lento, e só nos apercebemos dele quando já não resta ar nenhum.
Um dia, ele surgiu. Quase que como por coincidência, fazendo os contos de fadas parecer reais. Fazendo as coincidências parecerem reais.

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