Custa muito levantar pela manhã. Despertar para o desinteressante é, essencialmente, lixado. O estímulo está longe de percorrer as veias e de dar o pontapé necessário para a saída, qual cafeína.
Tomar o pequeno almoço, lavar a cara, os dentes, vestir. Vestir o quê? Não importa. Qualquer trapo que acompanhe o a indiferença pelo dia-a-dia.
Há alturas assim. Momentos, mais passageiros ou mais permanentes (alguns imutáveis, mesmo), em que a vida pretende apenas ser amorfa. Rotineira, desprovida de encanto, com fascínio nulo. Em que hábitos são apenas, isso, hábitos, sem nada de pessoal neles.
As horas custam a passar, mais do que é normal. Mas, curiosamente, os dias atropelam-se.
Desgaste, desgaste, sem que sequer haja razão para isso.
Levantar custa, acordar custa.
Acordar para o quê? Para o dia por si. Para o sol que nasce, ou a chuva que cai. Para os sorrisos, as novidades, as pessoas, as gargalhadas, também as lágrimas. Custa, viver custa.
Por outro lado, ninguém disse que seria fácil.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Breve consideração
Não sou por Charlie, não sou por Paris, por França, pelos
cristãos. Por país nenhum, por religião nenhuma, independentemente das minhas escolhas pessoais.
Se estamos a falar de um jogo, eu torço pelas pessoas.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
#3
Há dias em que o pronuncio de algo paira de forma
intermitente no ar. O lugar das coisas já não é o mesmo. As coisas, na verdade,
nunca tiveram lugar.
Perdemos o sentido de tudo. Houve uma altura em que tudo
fazia sentido, mas depois não fazia mais.
Os olhos são grandes. Grandes demais para alguém tão
pequeno. Afaga a curiosidade que sente com um par de estalos bem dados – a
realidade. E de repente, deixa de querer saber.
Pisei a rua hoje com um sentimento de revolta. Revolta pelas
conquistas não alcançadas, revolta pelos anos perdidos, revolta pelas lutas
falhadas. Fúria contra ideais perdidos, contra ideias frustradas. Ódio por
pessoas incompletas.
O momento seguinte foi de suspiro profundo. Tudo foram
pedaços de um caminho que no fundo moldou a mesma pessoa que sente esta
revolta. O esclarecimento pairou à minha frente.
A revolta não vem do que se passou. A revolta só nasce porque a lucidez veio com o que se passou.
A revolta não vem do que se passou. A revolta só nasce porque a lucidez veio com o que se passou.
Às vezes não importa chegar. Importa é andar.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Arquitecto pedante das casas abandonadas,
Maestro decadente das orquestras destroçadas,
escritor bêbedo de poemas deslavados,
Maestro decadente das orquestras destroçadas,
escritor bêbedo de poemas deslavados,
Foi trovador, triste, só,
bordador dos retalhos que lhe deram,
Da sua história pouco se sabe,
bordador dos retalhos que lhe deram,
Da sua história pouco se sabe,
Apenas que um dia não veio.
“O papá?” perguntava a criança, pouco consciente de que a realidade é um cão atiçado.
“O papá” respondia a mãe, de olhos cansados, mas sempre bailantes. “o papá é aquela cadeira vazia. São as tuas noites inconsoláveis. As tuas e as minhas. São os dias que ficas sozinha em casa. São os passeios que não tens, porque eu tenho que trabalhar.”
“O papá” respondia a mãe, de olhos cansados, mas sempre bailantes. “o papá é aquela cadeira vazia. São as tuas noites inconsoláveis. As tuas e as minhas. São os dias que ficas sozinha em casa. São os passeios que não tens, porque eu tenho que trabalhar.”
Um dia tinham-lhe dito que ia ser feliz. Que ia casar, ter filhos, ter uma família perfeita. Sonhara, mas quando acordou percebeu que sonhos eram apenas sonhos.
A realidade era um copo partido, já sem hipótese de estar meio cheio ou vazio.
Queria tanto ver o mundo. Queria tê-lo visto, queria partir: mas achava que aquela criança merecia pelo menos um pouco mais do que tinha tido.
E por isso não o ia ver. Ia perdê-lo, deixá-lo passar, ali nas quatro paredes do bairro, da sua cidade.
E a sua cidade não era má. Não havia crime, havia coisas boas. Pessoas francas, pessoas boas, pessoas bonitas, comida boa, vistas lindas de morrer; e depois havia aquela espécie.
A realidade é uma parede mestra rebentada a martelo.
Aquela espécie é um tom de desdém para referir as pessoas que pouco ou nada conhecem de respeito. Pessoas que partem, que rebentam, que atiçam e se atiçam. Não há nada de romântico em ficar na berma da estrada a chorar. Mas isso acontece mais amiúde do que as famílias felizes. E, no entanto, sabia que a maior parte das pessoas não se impedia de sonhar. Estava velha, sentia-se velha. Sentia-se mais do que aquilo que estava, na verdade. Queria ser aconchegada, soluçar, soluçar noites e dias inteiros até que aquela dor se desvanecesse de vez. Anos a alimentá-la, ainda que sem querer, só podia dar nisso.
A sua mãe tinha-se sacrificado para que também ela tivesse uma vida feliz. Visse mundo, visse coisas que nunca tinha visto.
Mas a realidade é um furo lento, e só nos apercebemos dele quando já não resta ar nenhum.
Um dia, ele surgiu. Quase que como por coincidência, fazendo os contos de fadas parecer reais. Fazendo as coincidências parecerem reais.
sentido que tenho
Há anos que nos marcam. Inícios que surgem um pouco tímidos, verdade, mas depois florescem ou potenciam-se para os mais diversos caminhos.
Os caminhos fazem-se andando. Seja cá dentro, seja lá fora.
Com este nervoso miudinho, posso asseverar que o meu ano ainda não começou. Avizinha-se começar em alguns meses.
Com alguma expectativa e em antecipação, não quero antecipar nada. Porque quanto mais se espera, mais tende a desilusão a superar.
Trago no peito um grito mudo e surdo.
*este ano faço 30*
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